

Resolvi, eu e mais quem insistiu na ideia de ir ao Martim Miniz comprar acessórios para os fatos de Carnaval, quando me foi apresentada uma realidade estranha e sinistra! Da fama que lhe está associada/incutida não se livra, mas vivê-lo ao vivo é uma experiência única e perturbadora...
Atravessar o Largo do Martim Moniz, nos nossos dias, pode assemelhar-se a uma viagem ao Magrebe, à Índia, à China ou à África profunda. E tudo sem sequer rumar ao aeroporto da capital, na Portela. A multiculturalidade daquele espaço, quase esvaziado de alfacinhas de gema, é simultaneamente um problema e uma potencial riqueza social.
Do Centro Comercial da Mouraria ao Centro Comercial do Martim Moniz, passando pelas lojas de roupa da Rua da Palma e pelos restaurantes no início da Avenida Almirante Reis, seguindo pelas boticas na antiga estação de metropolitano do Socorro, agora rebaptizada com o nome do largo, ou simplesmente vagueando pelas fontes que decoram a gigantesca praça, o cidadão mais distraído não diria que estava na capital de Portugal, na ponta ocidental da Europa.
Droga, prostituição, proxenetismo são as características normalmente associadas a estas ruas por todos os habitantes de Lisboa. E a verdade é que as profissionais mais antigas do mundo lá continuam nas esquinas, convenientemente vigiadas à distância pelos seus «gestores de carreira», e os junkies circulam pela zona, em busca da próxima dose que lhes garanta o paraíso.O poder reservado a quem de direito tem tentado intervir no eixo Martim Moniz/Mouraria/Intendente. Entre os anos 40 e 60 do século passado, o Estado Novo deu ordem de demolição de parte da Mouraria, com planos de reconstrução, sob pretexto de terminar com o bairro fechado que entretanto ali se criara. As casas vieram abaixo, mas até à década de 80 a ferida aberta, vergonhosa, ali resistiu a céu aberto. Na altura, a Câmara Municipal de Lisboa permitiu a construção do já referido e contestado Centro Comercial da Mouraria. E foi apenas quase no virar do milénio que o arranjo do largo, com fontes, repuxos e quiosques, foi terminado.
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É uma tristeza ver aquele amontoado de lojas e pessoas sem condições... E não se faz nada!